A representação visual do nordeste hoje deve-se muito à produção disseminada por “estrangeiros”, de outros países ou mesmo de outras regiões do Brasil. Imagens produzidas em filmes, propagandas, fotografias em livros e revistas foram criando um lugar comum a partir do ponto de vista de quem as concebeu. Terra seca e chão batido são apenas alguns elementos de uma extensa narrativa responsável por definir a forma como uma das regiões mais diversas do país seria encarada sociopoliticamente e culturalmente ao longo de décadas. Enquadrar a realidade de um lugar não é tarefa fácil, ou pelo menos não deveria ser. Assim, o território, dotado de história e de marcas do vivido, não cabe em uma mera representação imagético-discursiva.
Mesmo assim, antes de visitar novos lugares, é comum que tenhamos uma imagem preconcebida em nossas cabeças. A forma como imaginamos o território, mesmo sem conhecê-los pessoalmente vai depender da forma como consumimos informações sobre este determinado recorte espacial. Portanto, a imagem pode ser próxima ou muito distante da realidade. Mas será que os territórios possuem uma essência única? Ou os lugares têm uma essência plástica que, dependendo da experiência vivida, pode variar de pessoa para pessoa?
O projeto âmago é uma pesquisa cultural que aborda questões relacionadas ao território e ao imaginário agrestino, centrado na cidade de Caruaru. Com imagens analógicas e digitais reunidas em uma série de fotografias, o trabalho apresenta a cidade agrestina de Caruaru sob diferentes lentes e pontos de vista. Na obra, o território comumente relacionado a uma dinâmica interiorana com um modo de vida rural ganha diferentes extratos e significados comuns à uma cidade pulsante, criativa, sempre em movimento. Ressaltando a importância de um olhar de dentro, do interior, do desapego aos estigmas, das impressões do real e do subjetivo.
Na série, é possível supor um jogo entre lentes: uma empunhada pela fotógrafa Ythalla Maraysa, que assina as imagens desta obra; a outra, seus próprios olhos, atentos e sensíveis. Olhos de uma jovem artista, nascida e criada em Caruaru, cuja ligação com o lugar transborda em sua arte. Nas fotografias, a artista parece querer dotar esse espaço de uma compreensão objetiva: rostos, gestos, bares, vegetação, movimentos culturais do lugar, vestimentas, corpos. Apesar desses elementos imagéticos, o mais importante nesta obra é aquilo que não vemos. A cada página, pode-se contemplar duas imagens distintas: uma posta e uma proposta. As diferentes câmeras usadas captam uma dualidade que coexiste entre si; ora revelando aquilo que foi visto, ora revelando aquilo que foi vivido. O objeto é o lugar. O interior de fora e o de dentro.
A escolha por uma estética analógica com diferentes técnicas de impressão reforça um movimento de retomada dos processos tradicionais fotográficos, os quais, devido à possibilidade de intervenção, permitem uma maior autorrepresentatividade através das fotografias. Um aceno para novos mecanismos de expansão da fotografia pernambucana e principalmente agrestina.
Texto: Williams Robert