âmago é um fotolivro e é um território também. Em suas páginas, a paisagem agrestina não apenas se revela, mas se reinventa, fugindo dos enquadramentos cansados que há tanto tempo lhe foram impostos. Neste diário poético, murmuram-se outras verdades, sussurram-se outras cores. É nesse espaço de encontro entre imagem, matéria e memória que o agreste deixa de ser pano de fundo para tornar-se protagonista, uma paisagem que se reinventa entre presença e fabulação. As imagens transformam o território num personagem que se entrevê nos caminhos, nas pausas e nas pontes de sentido que se mostram entre as fotografias.
O agreste e o livro se desdobram, se abrem em fenda, se derramam em gesto. Isso porque certas paisagens só se deixam ver quando não se tenta capturá-las, mas quando se está disposto a senti-las, a realizar a experiência íntima e criativa de habitar o território. âmago não busca dizer o que é Caruaru, mas insinuar o que ela pode ser quando vista de dentro, com o tempo necessário ao encanto. E nesse gesto, de ousadia e de ternura, caminhamos pela escrita sensível do território. Um lugar que se imprime na memória não como registro, mas como presença viva, capaz de habitar em nós com outras luzes, outros silêncios, outros nomes. Abre os olhos, olha pra dentro, ouve o silêncio, vê o âmago.
Daniela Bracchi – Curadora